NICOTINA

Escrevi de graça todos estes anos... agora preciso de moeda em papel para escavar o calo que tenho no dedo que me apetece oferecer-vos.

SEUS MERDAS!

Abandonava as palavras caras sempre que abria a carteira e se percebia pobre de espírito.
Nesses instantes todos os filhos da puta que conhecera escalavam o pedestal da sua moralidade esmangando-lhe o medo.
Aí o todo virava nada e a destruição escapava à loucura que tão divertidamente lhe cheirava o cu sempre que podia.
Passem todos bem, longe de mim.

C'EST LA VIE

Porque a vida acabará por nos matar
Pude compreender que qualquer batalha
É por nascença condenada
A guerra.

FADISTA!

E na voz entaladas
Estavam as letrinhas
De todo um coração,
O meu.

Que pulsa pulsando
E fala falando
Por si
Por mim.

Bate o compasso
Que escreve
O momento
Que componho
Faz tempo.

Sem rimas cantado
Parece falado
O que dito
É só fado.

AROMA TERAPIA

Fui ficando por ali
A olhar-te
E, assim, vendo-te
Aprendi a sentir-te.
Os teus braços atravessavam
De tempos a tempos
O diametro do meu olhar
E, assim, desfocando-me
Conheci o teu perfume.

BREAKFAST

A manhã despertou entreabrindo-te os olhos
E tu na dúvida sorriste-me.
Ali ficamos em silêncio
Sentindo o tempo parar.

O teu corpo branco iluminava a minha nudez
Que embriagada pelo teu perfume
Enjoava o sono
Para sentir apenas fome de ti.

SAUDADE

Fecho os olhos
E vejo-nos
Nitidamente
E desejo
Cair em sonos
Só para não ver
Tudo isto!
Toda esta saudade.

ATÉ LOGO

Cheiro o meu cabelo por ti
e por um breve momento
o momento
eu cheiro a tua mão
na minha cabeça.

A CULPA

Os tijolos do medo
dão paredes a parasitas
nesta casa de mim.

Os bairros mapeados
estão repletos
mas continuam a chegar mais.

O bairro chique
de outrora, agora
alberga as favelas.

E favelada de mim
ainda caminho.
E penso.

Não é sempre
que penso assim
mas ao menos penso!

E sinto,
sinto muito
Medo.

Essencialmente medo,
de tudo quanto mexe
e sabe falar.

TINTO

O meu dicionário és tu,
E sem ti o mundo que entendo
É incompreensível
Mesmo em palavras.
Mesmo nas nossas palavras,
As mesmas.
As palavras!
Amor!
Meu Amor!
Como posso apenas
Sem nobreza assistir
A esta teia de mim
Sobre mim embrenhada?!
Como ficar assim abutre
Dos meus restos mortais?!
Dái-me alcool!
Embebedai-me!

COMO?

Oh que tristeza.
Ser tudo tão pequeno
E ter de tudo
Que esperar tão pouco!
Tão pouco!
Que fácil!
Que dor!
Como posso eu
Viver neste desespero
De não desesperar
Com as dificuldades
De todas as escolhas
Que seduzem
E cansam?!

SORRIA, ESTÁ NA ESTETICISTA!

Acordei e fiz um café
Enquanto limpava os olhos
E molhava os lábios
Ainda meia a dormir
Pensei que tinha
De ligar.
Marcar na agenda
Um encontro comigo mesma.
Quer dizer
Mais com a esteticista
A melhor amiga da mulher.
Hoje não estava muito mal
Mas mesmo assim
A dor não melhorou.
As mãos ainda transpiram
Sem que lhes dê autorização
E aquela cadeira quente nas costas
Sabe bem, sabe bem,
Mas é um aparte.
Dou por mim a ponderar
Sobre a importância do pelo
E da esteticista.
Sem ela não teria visto
A raiz do pelo
Que parece sempre
Coisa feia.
Como o chão do cabelereiro
Quando nos é cortado
Um pedaço
Grande,
Muito maior do que o que pedimos.
Foda-se!
Eu tinha dito um centimetro.
Eu disse.
Às vezes parece existir
Uma certa falta de respeito
Pela figura feminina,
Na realidade desconsiderem-se
Seus cretinos e
Passem pelo gabinete
De estética.

VOLTO JÁ!

Doem-me as mamas
Há dois dias já
Durmo mal em cima delas
E de barriga para cima
É dificil que durma
E exige canecos.

Há pelo menos uma semana
A lágrima aparece no olho
Mais que uma vez
Ao dia
Enorme, que ocupo
A comer... De tudo.

Sinto gazes, sinto o ventre,
Sinto tanto
E limpo.

Não estou bem em posição nenhuma
Doe-me os cabelos até,
Mas nem é doer
É um moer.
Do sangue
Até aos rins.

Não falem comigo
E a mais não serei obrigada
Senão retribuir o silêncio
Tão indicado
Nestes estados de lua.
E que estados!

Sinto gazes, sinto o ventre,
Sinto tanto
E limpo.

WAKE UP

Pela manhã o corpo parece-me pesado
E a dor nos musculos
tem-me adormecido o coração
Já não é dor, é só uma febre
uma manifestação constante,
contínua, persistente,
crescente,
insistente,
chata
que me...

CAPITAL

Parti mas não queria ter ido.
Quis ficar para pasmo do mundo que me povoa.
E por ti, essencialmente por ti.
Fora do universo que a dois embebedamos,
Acontecia o hábito e o desejo em
Impedir que os joelhos ainda tremam
Por causas de outras,
As oficiais.

SANTA CRUZ

Porque ao décimo coisas surgem sem que a encomenda seja feita
E porque nas facilidades se encontram surpresas maiores que Deus
Encontro em mim de tempos a tempos uma religiosa que se revela.
E em todas as orações sentidas distraio-me do sabor do velho para abraçar o novo.

05:31

Entre a 6 e uma das outras que era das grandes e amarela
o cabelo de corte fresco pairava sobre o tecido do piso sintético
e plástico como os acessórios de controlo deveriam existir
em alguns momentos quase sempre esquecidos.
O capelão prazer deixa que a extrema unção termine antes d'areia se atravessar
no caminho do corpo que já abandonado ainda paira na quimica
ou na física, que estou indecisa,
das existências que mesmo fantasiosas
somam pontos num fórmula insoluvel
a bem da humanidade
pelo menos da minha
e do tédio que ainda tenho por gastar.

TSUNA ME

Quantas vezes reconheci aos publicados
um interesse dedicado
só por terem primeiras capas
que em tudo e sempre desprezei.
Era como a vanglória da sua humilhação pública.
Que prémio!
Saluto-me a mim
neste estado de embriaguez
onde o enjoo elimina diferenças
entre quaisquer das palavras
e assim se impõe
como enjoo.
Que enjoo do c....
Que enjoo!

GODOT

Pensei contar todos os cabelos
Para assim esticar o tempo
Da tua demora em chegar,

Mas não tenho tufo
Que à minha teimosa espera
Possa triunfar.

Os nervos não esgotados
Padecem apenas da tua ausência.
Apesar de fantasmas povoados
Não chegam a testar qualquer paciência.

E a minha de impaciência não sofre,
É só mesmo saudade!

ES-ADOF

Mas quê?! Quem és afinal? Porque brincas comigo sobre o pedestal dos justos?
Quem és? Quem és tu? Quem é esse teu eu que se acredita leal a coisa alguma?
Quem é? Sabes? Ou estarás ainda à procura dele?
Quem és? Diz-me!
Terei eu porventura criado esse eu?
Fui eu então quem te criou para as outras mulheres, é isso?
Então não fujas agradece-me.
Deixa lá isso, informa-me apenas!
Mesmo que não queiras.
Onde me deixaste? À porta da vossa casa???
E porquê?
Sabes que mais...
Faz-me o favor de seres realmente feliz.

DUAS LÁGRIMAS

Ontem chorei muito.
Hoje verti apenas duas lágrimas.
Uma por cada olho,
As outras engoli-as
Para que possam
Desinfectar-me a alma.

SUSPIRO

Pudesses saber que és amado
Como todos os poemas sofridos
Lidos por esta poetisa pobre.

Pudesse ao menos eu saber escrever.
Para dizer que me sinto contigo alegre,
Me sinto por ti nostálgica.

Óh meu Amor! Não interessa se é Douro ou Suiça.
Partiste e tudo o que tenho para ti são sorrisos, Amor.
São suspiros de alegria, meu Amor.

Pudesses saber que o silêncio
Vem do respeito que tenho por ti Amor.
E este Amor não conhece palavras, nem lógica.
Só conhece a saudade e o recordar.

CARTA ABERTA A MIM MESMA

Ficaram em mim muitas das nossas histórias mas o teu cheiro com sabor a casa visita-me desde que parti e em todas as mentiras que acabei por escrever na minha vida errei só para poder abrir-te os braços quando chegasses. Em tempos forcei-me aos braços de outro homem convicta de que quando olhasse para a janela estarias lá para me lembrar das promessas de amor que se apoderaram de nós. E tem sobrado muito de mim em todo o lado e tudo porque tudo o que tenho é teu e a mais ninguém é para dar. Mexo e remexo na inteligência que me atribuem e não encontro mesmo a pedra da verdade para te dar e só assim posso ser-te mais fiél que a todos os outros: Não sei porque parti, não sei porque me assusta o amor assim, não sei porque não percebi, não sei como pude sobreviver, não sei quando morrerei de cansaço, não sei se devo desesperar ou não, não sei porque não podemos ficar juntos, não sei... não sei. Eis-me aqui à vossa janela! Ainda a respirar... por NÓS.

CÁPSULA

É mais fácil ler os mortos! É demasiado assustador encontrar vivo quem pense realmente como nós. Com tanta plástica a clonagem pode ser disfarçada e eu não quero mesmo ter duas de mim para cuidar. Até o cansaço seria a dobrar e eu não gosto assim tanto de me divertir. Imaginar a dor de Pessoa conforta porque já não lhe doerá mas aos vivos? Aos vivos dói e de que maneira e eu ainda não percebo porque há quem se delicie com a miséria alheia. Essa faz-me sentir vergonha por mim e por toda a Humanidade no seu esplendor! Ocupou-me por anos a preocupação de que a loucura de mim se ocupasse mas agora? Capaz de mim, dizem os outros, fecho os olhos e sopro as velas dos aniversários que desejo não celebrar. Que a vida venha e toda duma vez que eu estou aí para ela.

QUEM FOI?

Quem inventou a ideia de que a missão da vida é evitar a morte, quem?

ANJO AZUL

Que de meu tiveste apenas a porção correspondente à ingenuidade que assistiu a intensidade com que pensei amar-te e só na distância te pude amar percebendo o cinismo da escolha altruísta que em tudo disfarçou a dor da perca egoísta que contigo pôde ser. E ela esteve. Esteve lá. Ainda que não soubesse.

VOU SENDO

Sou para dizer que Estou.

SER e ESTAR

Toda e qualquer dor, alegria ou manifestação distinta constituem parte das provas que a minha memória arquiva em defesa do meu conceito de felicidade. Todo e qualquer objecto ou matéria de discussão que perturbe o meu quadro de rotinas são por mim desejados, rejeitados, consumidos, temidos, amados e ignorados de forma vil ou juvenil. Mas todo e qualquer objecto ou matéria são abstractos e elementos, do tamanho dum átomo, numa conta global, que mais não faz que registar variáveis prováveis em bíblias, que não só não me preocupa como não me interessa. O meu propósito Individual enquanto Humano é ser Deus, que pelos vistos é o único que tem direito a descanso.

MADE in PORTUGAL

Esperou pelo último dia do ano para nascer à força. E, assim, nasceu teimosa e obstinada. Já não pode aderir ao cartão jovem mas, continua portadora de documentos de identificação acreditados pelas autoridades, que as maiorias alimentam. Os credíveis afirmam, em coro, que é natural de Portugal e a percursão, interpretada por selos e carimbos, faz soar a tarimba que, sem nota, canta: Alijó. O bombo reclama e afinado bate o tom de Lamego. Foi o bombo quem originou esta minha incursão pela odisseia musical que tem dançado sobre a sua pauta. O bebé, que teimou, foi parido onde diz o bombo mas, era fim de ano e os papéis bebados riam das canetas que se emocionavam com o fogo de artificio. No dia seguinte? Estavam de ressaca, a mãe rouca e a bebé obstinada e isolada num plástico onde a cabeça respirando, qual balão, engordou até à forma de gente. Nasceu a dar trabalho e esbanjou exaustão. Não queria ser notada mas, os bebados sentiram culpa e, assim, nasceu arraial. Nenhum documento, testemunho ou registo legal refuta o facto de ser nata em Portugal. Mas como os papéis gostam de vinho e as autoridades criam os papéis confirmamos com a única fonte possível de passível de credibilidade que de caneta feliz em mãos festejou o ano novo sobre um timbrado já longe da ressaca encerrando a dúvida. Em Alijó, sem grande força se esqueceu Lamego e se subscreveu Portugal. O bebé é gordo e tem agora um nome escrito. Ganha sexualidade, identidade, individualidade e um contracto vitalício com o Ser.

PÁTRIA

A minha Pátria é a Morte e eu fui expatriada à nascença.

I’M A PORTUGUESE GIRL IN MILANO

O Sting, por sorte, foi a NY e aqui, por enquanto, ouve-se pouco mais que a ventoinha que arrefece o, meu provocante, mac. Che cazzo ci faccio qua? Questa non è una domanda nuova quindi resta da dire che non ho ancora trovato una risposta. À força da vossa vontade posso assegurar que estou bem. Pelo menos estou. E aqui e agora enquanto o cigarro arde no cinzeiro, a quem fitacolei o título stampato posacenere, decido partilhar a decisão de aprender a dizer não. Talvez esteja à força da minha necessidade, a mesma de sempre (a de empatar o tempo), a criar uma nova lição fantasiosa à qual mais tarde darei um certo valor como se a sua importância fosse inequívoca além do agora.

O que importa é agora estou aqui. Com toda a saudade que me ofereço, a minha casa tem a mesma morada de sempre, eu vivo dentro deste corpo cuja morada actual se fixa em Milano, numa qualquer zona chamada de ISOLA e que não identifico fora do mapa do metro. Na realidade, não me interessa viver Milano fora do circuito turístico. Vivo qualquer coisa de uma Milão industrial mas a maior parte do tempo continuo a sair-me bem e a saber como não ver, não registar, não guardar e muito menos fazer download… e isto tudo falando. Sim, continuo a despistar os outros com palavras mas, aqui o entretenimento que emito é divertido e quase alegre só porque a emigrantada que lhes endereço soa coisa absurda.

Aqui sou de fora e às vezes estico o dedo para dizer qualquer coisa mais sensata só porque é ambígua e evita os sorrisos sinceros mas esbanjados que me endereçam sem encomenda. Aqui, sou menina porque a falta de domínio sobre o discurso mo permite. Enquanto viva o que eu mais tenho é tempo e um dia destes sem esforço ainda me vejo a domar este cavalo que farei saltar sobre mim. Um dia destes como a língua italiana dando-lhe permissão causal e sem retorno para que de novo a palavra se ocupe de mim, os papéis vão inverter-se e penso que dentro em breve. O ego que finge acreditar, demasiadas horas por dia, na inteligência está tão mas tão satisfeito que até enjoa. Fazia tempo que não me dava esta permissão e sem EU querer desta vez ele ganhou-me e apareceu nem eu sei bem como. Talvez no meu muro de palavras algumas tenham caído em desuso abrindo a brecha que o estimulou a espreitar. Quando saiu e, chegou, apareceu de mansinho e no seu silêncio observador sentia medo e uma certa preguiça causa do habitual conforto da rendição forçada.

Mas agora? Meus amores, se ele pudesse falar por si não estaria eu a escrever. Agora o filha da puta está em grande, e cheio de certeza e tesão pela incerteza. Não trouxe nada de novo mas está menos cansado e débil que a humildade e o bom senso das maiorias. Vejam só que o cabrão até cagou na vaidade só para manter o conforto da rendição que agora não sendo forçada facilmente parece humildade. É uma verdadeira puta. Em italiano todas estas palavras aparentemente mais agressivas são chamadas de parollace e em português são hediondas letras que se juntam para congeminar um ataque sem aviso, terrorista portanto, contra a religião. E em Portugal não temos o Pápa mas há a Fátinha que o leva lá de tempos a tempos. Eu sou como o João II e percebi que a ler sei todas as línguas. Mas o ego é rato e memorizou mais informação. O gajo não percebe que eu racciono o espaço em disco e prefere ignorar que o saber ocupa lugar e mais importante: pesa comó catano! E assim ele vai-me dizendo que o italiano que já sabe não tardará a dobrar-me. Mas eu estou firme. E continuo por cá. Dentro do invólucro que também suscita curiosidades diversas. Também já sei falar qualquer coisa de mãos e no geral tem sido muito útil.

As mãos! As mãos são coisas maravilhosas e aqui quero até deixar crescer as unhas só para coçar as marcas que os mosquitos me impõem dia após dia. Se pudesse coçava até ao sangue mas não gosto de lhe tocar. No quarto há uma cama mas o design não parece nem italiano nem sueco. Já o sofá por certo usado é de um azul comum que lembra um mar à noite que aqui não há. Vou passar pelo Porto para visitar toda a Alijó que interessa e numa corrida desço a Lisboa onde o calçado de Verão me conduzirá a mais um check in moroso e ácido para Milano porque não há soldi para passar pelo Texas. Não sei se sacio a vossa ou a minha vontade com esta ou qualquer outra forma de me relatar no tempo que mesmo agora já se foi. Importará a vosso critério.

Direttamente da milano, non ho niente da dire, come sempre... Portanto, talvez esteja na hora de ir ler um tipo publicado só para ver se encontro por lá um pedaço da maioria sensata que nos filmes vou evitando. O ego também reclama direito de antena e neste seu confessionário vai ter espaço para os beijinhos. Então vá! Fala páí animal. Tu és demasiado em qualquer lado miúda não estará na altura de gostar? Beijos mil pá Gildinha, tenho muitas saudades tuas garota vê lá se passas por aí. Bacci

CHECK IN

A hora avizinhava-se e com ela as borboletas esvoançam massajando o estomago. Nem recordo se a última salada teve paladar. Lembro o rosto silencioso da Anna e um sorriso só dela que me golpeava ferozmente. Com ela o tempo prolongou-se e só no último e primeiro abraço a descida se tornou eminente.

Não gosto da palavra nunca mas facto é que nunca gostei de aeroportos. A bem da verdade os transportes colectivos são um aborrecimento único. Era domingo e de tarde e talvez também por isso a fila era imensa, desorganizada e quase competitiva. Anna coordenava o evento no terreno enquanto eu impávida de mim assistia ao filme emocionada como se de Fellini se tratasse. A minha Annita estava agressiva e linda como qualquer criança contrariada. Eu sentia-me sentada no Nun’Alvares, dividida entre a história e o ruído da máquina de projecção.

Ainda bem que na bagagem havia espaço para mais uma e intensa memória. No abraço senti amor, senti dor, senti saudade, senti verdade. Até a doce Debie fraquejou e precisou de açucar para me abraçar sobre as suas próprias pernas. A três vivemos um momento só. Tão bom que foi chorar-vos na descolagem.

ANOS VERDES

Pode ser triste dobrar a vida para que caiba num malão com a ajuda do rabo. A mim entristeceu-me o facto de nenhuma combinação formar uma pintura agradável e só por isso não fotografei a bagagem que tão bem seleccionei. A despedida não é dolorosa porque é inexistente, pelo menos para quem parte. Quem parte não vai! O amor é que dói! E todas as manifestações de amor oferecidas fizeram de mim um mártir feliz. O tempo é senhor e de quando em quando oferece caminhos. A última pista traz-me a Milão mas nunca antes estive tão perto. O vosso amor faz-me fraca e chorona mas faz-me sentir que ESTOU.

I LOVE PORTUGAL

Produzida em Portugal cresci saudosa da pátria gloriosa dos manuais. Formei a pessoa pensante sob o efeito da vergonha da pátria que um dia já foi. Vergonha porque a maioria à volta sempre justificou a preguiça com a glória perdida ou roubada. Um belo dia, não pela pátria mas por mim, decidi que o passado pouco interesse tem fora do cinema ou poesia. Nesse dia o prazer de viajar diminuiu. Nesse dia Portugal ganhou uma paisagem paradisíaca para mim.

TILTE

Há estados de lucidez pura que se fazem acompanhar duma total embriaguez motora.

MARIA

Maria, de nome, acha que todas as grandes ideias são caras e não se lembra de se devotar ao patrocínio do génio. Sempre que compreende “génio” as mãos gelam-se-lhe, sente pressão, sente tesão. A Maria Está é É ou quer Ser e sobretudo Estar. Amante do paradoxo sonha desaparecer. Escreve porque na solidão da revelação encontra o conforto da invisibilidade e só assim experimenta o prazer tântrico do tédio. Lá longe da culpa a vergonha de Ser Humano vira Arte. Escrava das letras cavalga sobre as ideias e sob influência de si apressa-se para que se canse e lá, bem longe dos outros, não sente vergonha de se gostar assim, miserável. Na realidade espelha todos os outros e é difícil acreditar-se nela. Se é miserável pouco mostra mas nota-se que vai gostando de si sempre que ao convívio é obrigada. Às vezes procura-o, ao convívio, para encontrar a solidão ou a alegria ou a temerosa surpresa. Um dia destes cruza-se com Deus. Não anda perdida! É assim! Tipo nómada por dentro. Sim, por fora anda sempre lavadinha e mesmo assim não cheira sempre bem. Está a queimar os 20 e é agitada. No resultado duma dessas equações encontrou no trabalho, o menor dos sacrificios, patrocínio para a escravidão do corpo que se quer cadáver. O corpo é-lhe uma cruz. Bem, Maria é mais uma cruzeta bem mal vestida.

ESTOU CERTA DE QUE ERRO

Não há calendário para a vontade. Não faz sentido desenhar um mapa para o momento, ou faz? O Homem é simplesmente uma doméstica com milhares de anos de experiência. Não é profissional é profissionalizante.

QUE TENS?!

Uma vontade ENORME de sentir humanidade. E tu?!

AMOR!

Os teus olhos, amor!
Eu conheço-os, também os uso.
Mas a dor que os teus não mostram amor!!
Não contes amor. Eu percebo porque preciso.
Também é assim para mim amor.
Encosta.

POR AÍ NÃO

O teu reflexo é sombra da tua sombra.
O tempo não chega para te encontrares lá.
Não sei por onde será,
Mas não é por aí.

NA TEIA

Presa da teia que teci!
Nem uma mão de cetim pincelaria ideias de mim.

A TEIMOSA

O tempo teima em desgastar os ponteiros.
E eu com o tempo gastando tinta.
No gasto das palavras a mão tece ideias.
Essas?! Fizeram de mim teimosa.

INSÓNIA

Reinarás o meu castelo em ruínas,
Da poltrona da poesia.
Onde descobri este amor pelo impossível.
Foi ela quem me abraçou... com ela me deito.

SMILE

Não te posso olhar porque a ternura é tão óbvia que só sabemos sorrir-lhe.

É

Deixei-me levar pela poesia da imaginação para acreditar que faltava mais uma, esta carta. Aquela onde a literatura ficaria longe para dar lugar a uma outra coisa qualquer que me tem conduzido até ti, até aqui. A este ponto de encontro da fantasia.
Longe da literatura imaginei que o real não poderia ser desenhado. Teria de ser falado e perder-se no ar como todas as outras coisas que possuímos. E assim voltei à literatura, optei por te fazer chegar a minha prosa de ti. Se 1+1 resulta em dois, um dia ainda morro... Nada perdura no tempo, nem eu. Com tudo o que a literatura parece poder dizer e a poesia acrescentar: desejo-te da forma que temes.

MAS SÃO VERDES...

Na realidade os corpos podem ser bonitos, ou não, mas não passam dum invólucro secundário sempre que supomos o recheio credível de qualidade.

DE A A Z

Porque em todas as trapalhadas rezam as estórias dos meus passados narrados pelo eu do momento.
A memória não passa dum mau hábito. O hábito de recordar quem escolhemos deixar para trás.
Toda a memória verbalizada é ficção e o Eu presente não resiste ao acrescento de pelo menos um ponto no conto.
Por isso nos sentimos tão mentirosos a olhar através dos olhos de ontem.
Por isso nos sentimos tão pouco sérios afirmando Eu Sou.
Sentimos o Estar mas acreditamos poder ser o que recordamos.
Tememos um futuro baseados nos passado que vamos mantendo e contemplando.
O amanhã só existe porque lembro o ontem?
Será isto importante e determinante no sentir do hoje?
Porque decidimos amar o ontem como quem decide amar a dor por instinto de sobrevivência?!
E o instinto não está para o homem do pensamento enclausurado nas letras: M, E, D, O?!
E dignidade no dicionário diz o quê?

LAR

Porto. Vinho do Porto. Douro. Entre o rio e a montanhosa terra quente: casa. Doce casa, com cheiro a mãe. Por incrível que pareça não há nada que aconteça que torne possível o desmame. Não é coisa que se queira. A maior droga do mundo chama-se pai.

PLAY

E porque não deixá-las soltas.
A todas elas sem diferença...
Dançar em dedos e canetas até que o desenho se imponha perante o branco e possa ao mundo ter algo útil de se revelar.
O mar é como a guerra vai e vém.
É lindo. Para alguns, pelo menos.
Eu estou indecisa, o som provoca-me medos.
Mas a música não.
A música até no medo masturba o pedaço mais sensível do mim.

EUROMILHÕES

Todos os dias as hipóteses de inventar são infinitas. Não percebo de números para calcular o valor de combinações possíveis entre palavras. E pareço sofrer dos ouvidos quando a memória me recorda que nenhum desses discursos me alimentou. A existência por si não implica dor. Conhecer as palavras é que sim. Pelo menos a mim. Talvez só mim.

BOOM

A vida tem a morte por sentido único. E nós as palavras. Não resta muito. A opção do silêncio é apenas a opção de sobreviver à tentação de formular vocábulos. Eles enchem-nos as ideias. E com ideias gastamos o tempo. O tempo por sua vez é indicador de sentido único e o corpo materializa o seu passar. Não se vive, morre-se. Viver é uma ideia cansativa. A deformação é portanto consequência do desgaste de produzir ideias. Podemos distrair o tempo com a palavra: emoções. Às emoções aliam-se palavras que faltam em explicações mas que aliviam a parte do homem que não é corpo ou que pelo menos assim se quer. A essa parte por poesia prefiro e vou chamar de alma. Essa manifesta no cadáver a putrefacção intelectual a que as ideias a sujeitam. As palavras são portanto a base da consciência do tempo. O corpo uma bomba relógio. A alma a espoleta.

O NOMEADO

Onde Humano estava fazia algum calor. Dentro dos lençóis de flanela, em plena Primavera, ouviu ao longe uma flauta assobiar cinco notas... Nessa altura não sabia ainda contar. Nessa altura ainda não sabia perceber. Quando o chamavam respondia essencialmente porque se habituou ao Hu. Nasceu agarrado a um corpo que lhe diz o que é. Foi assim que Maria José e Mário Joaquim se indefiniram quando pensaram no que queriam para o filho em adulto. Que ele fosse Humano e não um Helder ou um Chico, sem necessidade de questionar a existência, pelo menos a sua... a dele!

SIM?!

Julgas que por te ter deixado ver os meus olhos viste a largura do meu olhar? Que julgas tu? Porque me olhas?

GIMNO DOS SENTIMENTOS

Se o que nos resta por verdadeiro são as emocões temos pela frente a poesia e a dor de todos os poetas. Iniciei o percurso faz algum tempo. E caminhar até ti é caminhar até ao infinito. Caminho num tapete crente de mim em te achar. O meu amor por ti dispensa o teu consentimento. É grande assim. Talvez não o suficiente. Ou então demais. Mas não há desequilibrios nas medidas da natureza, tudo parece dar certo com alguma coisa. Mas o encaixe parecendo provável com o aumento de tentativas continua a existir e improvável de acontecer.

EU QUERO TER UMA QUINTA

Devia ser uma Quinta porque estava irritada. Fica sempre assim. Sempre que a quarta termina e a sexta não chega.

LINK

Por mais que a escrita pareça promessa ela não perpetua senão o agora do escritor.

ALGUÉM SE MATOU

São vocês o legado que deixo ao mundo. Eu decidi ganhar a corrida. Percebo que a crueldade do vocabulário vos faça sentir raiva e culpa mas deixem-me que vos diga que nada disso faz qualquer sentido. Percebo que o vosso egoísmo vos faça sentir que alguma coisa fizeram de mal para que eu escolhesse deixar a festa tão cedo. Alguns de vós, poucos, sabem que não é assim. A festa foi mais divertida para mim que para a maior parte de vós. Vocês sabem. Mas eu percebo que seja difícil aceitar. Vou fazer-vos alguma falta mas daqui a pouco tempo passará e eu serei à vossa memória um pequeno milagre de vida.

DESAPAREÇAM

Preciso de criar música e texto. Deixem-me só. Alimentem-me de tempos a tempos mas deixem-me só. Desapareçam já e todos de uma assentada. Deixe-me. Deixem-me. Deixem-me em paz. Seus brutos. A quem querem impôr essa religião, a quem? Deixe-me. Deixem-me para morrer. Dispenso o vosso afecto. Desapareçam.

SAUDADE

É verdade que sinto a tua falta. Também é verdade que não posso travar o movimento dum comboio.

O POETA

Menosprezo a ciência e a razão. Poeta é o matemático, o que aspira a qualquer coisa de concretamente verdadeiro. O que na solidão da fórmula formula fantasias de colaboração com as grandes invenções deste nosso mundo.

O APONTAMENTO DOS PORQUÊS?

Porque me persegue a ideia da morte? Porque não?
Porque me persegue a ideia da vida? Porque sim.
O tempo é ditador e nem a alma pode salvar o cadáver.
Para quê salvar o cadáver?
Para quê prolongar o corpo no tempo?
Porque não? Porque sim.
É tanta a ideia que por aí vagueia que não encontram, as mãos, forma de as relatar.
Tal é a rapidez de produção de pensamento que nem a alma recupera o folêgo.
Escrever livremente. Sem pontuação acentuação ou correcção ortográfica apenas porque apetece.
Abrir a pista de dança num ímpeto de diversão, num impulso de loucura, num instinto de liberdade.
E automaticamente recuar. Perceber o ridículo percebendo a visão.
Perceber o absurdo percebendo a visão conjunta.

ANITA

ANTÓNIO: Tantas vezes abriu a pista sob o efeito de álcool e, pelo menos outras tantas, lhe experimentou o chão. Era capaz de andar mas, não apetecia. Na realidade, ninguém deveria ser obrigado a andar contra sua vontade. Ali ficava se deixassem. Acordava para o eu de cada dia, deslocada em espaço e tempo de qualquer eu mais familiar. Nem sempre se recorda do nome e o cabelo precisa de ir à máquina zero para ser penteado. Não deve lembrar-se que a escova tem utilidade. A maior parte do tempo parece apaticamente feliz. Dentro dum aquário onde a areia é fina e branca e o mar bate de rocha em rocha embalando-a como a uma estrela do mar ao sol prostada. Expira lentamente o peso da memória e em pouco tempo do nosso atravessa a jacto todo o espaço onde deambula no prazer do esquecimento. Toda as pessoas de que me recordo adoravam a Anita porque era fácil saber como era: louca, a coitadita! Eu apaixonei-me pela Anita, claro. Não há louca que me escape. Não esperava tocar-lhe mas sempre me senti vibrar ao som dos seus, para outros, disparates. Toda a vez que recordo me recorda um cansaço do qual não me quero esquecer, tudo que sempre amei nela foi a coragem de esquecer. Eu sou um apegado ao que não tenho e nem quero. Deambulo passo seguro atrás de passo até à toca onde levanto os pés e durmo até a boca secar. Acordei ao lado da Anita várias vezes. Nunca nos comemos. Acho que nunca quisemos apesar de a maior parte do tempo preferirmos acreditar que é por uma outra razão mais elaborada e qualquer. Mas nunca nos comemos. E quando acordo com ela não suporto o hálito mas adoro os seus olhos em bico na dúvida para o despertar. Creio que muitas vezes Anita não me reconheceu mas foi sempre um animal simpático e como nunca me assustou talvez não se tenha sentido ameaçada com a presença deste estranho. Um estranho que dorme com ela há anos e do qual nem do nome se deve lembrar. Às vezes quando se perde na fala narra sonhos onde se confundem algumas das memórias que eu guardo de nós. Houve momentos de menor vazio, momentos em que me cansei da louca e, momentos, em que louco de mim e feliz compreendia apenas Anita. Um dia qualquer, para frente ou para trás, dei por mim pela manhã a exercitar a memória de Anita tentando explicar o que lhe sou. Só aí percebi. Anita é o meu oceano de alheamento. O espaço onde a vergonha não é recordada e onde a fraqueza acorda esquecida. Todo o tempo que lhe dei foi descanso para mim. Era assim que estava apaixonado pela Anita. Dava-me o vazio.

MANUEL: Vá homem! Largue o copo que ainda se esquece das mãos por cá. Sabe que as suas histórias enchem a casa mas hoje, amigo, só cá estamos nós… estamos velhos António. Não nos resta muito mais que as memórias. E logo tu, meu velho. Tu que vives apenas de estórias… Vá lá Já chega. Lembras-te do caminho? Apetece-te andar?
António acena cabeça já inclinada na direcção do balcão para dizer que não. Manuel afaga-lhe a cabeça para que se fique então.
MANUEL: Então fica-te. Descansa. Vou fechar-nos a porta.

EU SONHO

Podia fingir e cometer erros mas iria escapar-me ao destino que quero escolher.
Podia fingir que somos amantes mas ia certamente perguntar-me porquê.
Assim não finjo e posso perguntar porque não.
Eu sonho e enquanto tu sorris eu lembro como tudo não começou.

MURALHA DAS LETRAS

Construímos uma muralha de palavras entre nós. Nada espero.
Quando se fala de real nunca sei o que acontecerá e raramente entendo o que acontece.
Se estiveres como eu estás num sítio de onde não é fácil sair.
O cansaço vence de tempos a tempos.
Não fossemos nós HUMANOS.

TIMECODE

A vida é uma luta. É um jogo.
É dura. É competitiva.
É animal. É à sorte.
É. Ou não.
Vamos assumir que o é.
A vida é um puzzle,
E a morte uma paisagem completa.
Começamos pelos cantos.
Aprendemos a andar e a pedir.
Derrapamos nas bordas
E perdemo-nos no recheio.
Tudo tem a sequência que se observa.

VOLTA À FRANCA

Voltas a partir.
Hoje deixo-te ir.
Vai.
Volta só se quiseres.
Nem sempre que quiseres.
Mas volta.
Volta porque não?

O BEIJO

São palavras que me faltam estas que te trago .
Não. Não é fado. Não tem alma.
É se por força tiver de ser.
São palavras que me faltam as que trago.
Na voz entaladas.
Palavras que me faltam e por isso não canto.
Não. Não é arte. Não tem forma.
É. É uma coisa qualquer se por força tiver se ser.
São palavras que me faltam

O VERÃO

Era quase meia noite e o tempo ditava que me sentisse perdido. O jantar não tendo sido nada de muito especial tinha servido o estômago. Acordara há pouco com o corpo a gritar por comida. Tinha passado horas a mais sobre um sofá pouco fofo. Os primeiros dias de calor suavam o corpo desejoso mas era já excessivo para a alma que o comanda.

GORDURA

Só a intensidade acusa a medida do meu esforço em pronunciar verdade.
Corpo e razão juntam as mãos acusando o cansaço que advém da intensidade de ter de estar.
Estar. Sonho com nuvens e silêncio. Sonho com estar.
Estar realmente no corpo que me transporta.

EIS-ME

Nesta folha vai um pedaço da minha vida.
Nesta folha imprimo alguns desenhos que me ocupam o tempo.
O prazo de validade das ideias que te endereço é o aqui e agora.
Tudo passará a mentira depois de o compreenderes.

ÁS DE COPAS

Encontramo-nos num espaço onde o tempo não foi senhor. E esse tempo vai ocupar sempre o mesmo espaço, quanto mais não seja por opção. Onde me entreguei ainda paira o nosso perfume. Recordo com nostalgia essa menina que amaste. Recordo com nostalgia o facto de acreditar que tinha algo para entregar. Tinha-me para ti. Que bonito!

POST SCRIPT

Dediquei muita da minha escrita a ti. Muito do tempo que reservei para mim mesma dividi-o com o pensamento de ti. Percebo que não obstante a minha necessidade de me intervalar da fantasia todas as palavras que empreguei te deram a conhecer a mulher que sou de manhã. Talvez por medo a essa mulher não tenhas tido vontade de conhecer a que adormece.
Não calo esta dor que me alegra porque tenha esta necessidade de correr até ti e tu tens estado por aqui, nestas minhas folhas. Tenho-te dito muita coisa. Não lembro de ter partilhado tanto do que sou eu com ninguém. Se amizade é isso então talvez sejas um amigo. Confesso que não interessa o que és. Nem interessa o que eu sinto por ti e o que tu não sentes por mim. Não é amor nos moldes que pareces conhecer este amor que te tenho. Ter a tua permissão para te amar é ter permissão para te amar como te tenho amado sempre. Não tenho muito a oferecer. Sou eu apenas. Esta fantasia por mim alimentada.

FEELING

Sinto-me à mesma distância de sempre. Sinto-te sempre por perto.
Nada é mais real do que o que sinto e o que sinto não se materializa em nada de real.
Nem nas letras sou suficientemente verdadeira.
Só me sinto verdadeira quando persigo o pensamento. Na caça...
Escolho acreditar num número indefinido de directrizes em função da gestão dos afectos que colecciono.
Percebo que defini princípios por conforto.
E para mim o conforto está onde eu não estou.
Quero com isto dizer que só posso estar sem imposições onde não está a pressão do outro.
O outro impõe-me um eu que por conveniência faz esquecer o importante que é ser nada e simplesmente estar. Acredito que tudo existe em mim, em nós. Acredito que o nada também.
Acredito que temos connosco a chave do céu e do inferno e que precisamos de ambos os destinos para férias. Acredito que não acredito em nada.
Mas sinto muito mais além das minhas crenças.

COIMA

Lá na Câmara decidiram que a casa de um corpo que sendo móvel era carro se encontrava em local impróprio. Depois de uns quantos avisos rebocaram-me até um quintal. Qualquer dos terrenos dos montinhos de Deus era agora mais caro que aqui ficar… foi quando tomei a decisão de viver no parque de reboques da polícia municipal.

O GATO E A LUA

Os corpos mais recentes destacam-se na praia como a embalagem de leite da terceira prateleira a contar do chão em direcção à lua. Sim, à lua. Mesmo que seja de dia é lá que ela mora. Sempre que nos descolamos do afocinhamento a que o número nos obriga, viajamos no tempo e por momentos cedemo-nos a liberdade de procurar a lua.

MEMO

Estive a pensar, porque ainda não consegui parar, que toda a busca oral da verdade foi um desastre. Todas as palavras que reproduzi regressam agora para me cobrar essa verdade e todas elas se transformam em novas fantasias, em novas permissões.

ESPELHO

A beleza não se vê: entranha-se e estranha-se.
Este é o corpo que carrego.
Nele a alma descarrega todo o lixo conclusivo a que as palavras parecem conduzir-me.
Acreditar não me alimenta.
Desacreditar não me emagrece.
Ser tem pouco ou muito interesse.

POST IT

Todas as memórias que recordo têm palavras. E nem todas as memórias que decoro se manifestam no tempo como que em linha. Quando o contexto assim parece solicitar, desenterro palavras em memórias e a maturidade serve apenas para contextualizar o incómodo da memória de jovem que reclama um estatuto de melhor. E o melhor que podemos fazer pela velhice é fabricar grandes memórias e experimentá-las para lá do interesse. A reforma por excelência está na bagagem da alma. Façamos essa mala com tudo o que de maior nos ocupa: as memórias.

FALAREI

Sou escrava da ideia essencialmente porque a razão precisa onde gastar o tempo.
A razão é escrava do tempo e dessa perspectiva a loucura parece ser a liberdade.
Mas a liberdade é sempre escrava de si mesma.
Não posso mesmo assim em certos momentos privar-me a liberdade de te falar.
Não te obrigarei a ouvir.
Falarei.

A RELIGIÃO DO RELÓGIO

O Humano escreve-se por ocupação. É a ocupação de estar vivo.
Somos o que queremos porque queremos. Queremos o que queremos porque somos o que queremos.
A vida é ocupação… A ocupação de estar vivo.
Ser Humano é um estado. O estado de querer ser Humano.
Ser Humano é religião. A religião de ser Humano.
A religião é escravidão. A escravidão do ser Humano.
Animal é Humano. O ser Humano tem por ocupação ser animal, estar vivo e crer no Humano.
Estar Humano é ser escravo da narrativa. Quer-se Humano em linguagem o animal.
E da palavra vive a religião do Homem. A religião da informação, de Jesus e Platão.
O Humano é existencialista pelo menos desde Cristo. É existencialista em linguagem.
O Humano é linguagem.
Escolhemos o Humano e ter errado na escolha não é escolha de Humano.
Entretanto o animal ocupa-se do Humano.
E o tempo passa enquanto Humano reza ao tempo.

TEM MUITAS VEZES

O respeito que me dás é tão amor quanto o ódio que te tenho.
Pelo menos às vezes. E olha que eu amo-te à boca cheia.
E isso tem muitas vezes…

Não sabes.
Eu sei e já lamentei.
Disso sabes.
Sabe que pouca diferença faz.
Sabes.
Pois.

O respeito que me dás é tão amor quanto o ódio que te tenho.
Pelo menos às vezes. E olha que eu amo-te à boca cheia.
Isso tem muitas vezes…

NECESSIDADES

Sou uma vida em mãos.
Ou escrevo ou sufoco.
A escrita é a arte dos necessitados
E não o dom dos letrados.

JAULA DE MIM

As palavras iludem.
Juntas formam grandes elásticos
Que um dia ao tempo vão ceder.

Nesse dia,
Não vão chegar palavras
Para atenuar a queda da alma
Na terra dos cadáveres.


A palavra permite-me sentir nesta jaula de mim
Esta jaula de mim é tão forte como a palavra,
Tão frágil como traços que risco em folhas brancas
Apenas porque o branco me perturba.


A jaula não tem porta,
E a palavra não serve mesmo sendo chave.
Tenho um corpo fundido à alma
A palavra serve-se de mim para preservar essa clausura.

CABRA

A hora da nossa morte chega com sabedoria,
O total conhecimento de nós mesmos.
E assim morre-se de desgosto.
Reconhecendo-nos miseráveis e imperfeitos.

A morte é o golpe dos golpes.

Não é o inicio de uma existência mais leve e áurea
É o fim do tormento de pertencer ao gado.
A imperfeição é tão insuportável.
Que não suporto ser imperfeita!

Obrigo-me a corrigir
O que não tem correcção.
Mas a natureza do imperfeito é ser imperfeito.
E eu estou chateada com o Senhor!

Sou reflexo dos outros e gostava de estar sem imposições.
Não me agrada imaginar-me parte do rebanho do Senhor.
Não me agrada saber que o Senhor me abandona se o gado não seguir.
Assim, sou reflexo do gado que sigo.

HÁ-OS

Não falta gente interessada em procurar uma agulha no palheiro.
Pena que o façam de cigarro na boca!
Não falta gente disposta a jorrar palavras na direcção dos outros.
É assim a natureza dos falantes.

Há os que falam no silêncio da escrita,
Há os que escrevem sobre vozes.
Há gente que fala sem parar e quem páre de falar.
Há gente que sabe ser e há quem nada saiba.

OTL

Há uma série de contendas que me preocupam...
As outras?! Ocupam-me.
As que me preocupam são contudo menos aflitivas que as que me ocupam.
Aos meus olhos sou Deus.
Vou onde eles me consomem.
É no olhar que sou divina.
E no olhar sou absurda.
Abraço o mundo do meu olhar de que serviriam asas se os olhos cegassem.

SANTA INJUSTA

As janelas das casas são retratos da cidade.
A sua arquitectura nada pode contra a força dos montes de Deus.
Amigo Bernardo, Deus é Deus sendo do tamanho do que vê por ter vistas privilegiadas.

Viva a alma enquanto o corpo morre!
Viva!

Passo pelo Terreiro do Paço e dispenso o comércio.
No meu silêncio a cidade conta estórias.
O cheiro a frio sabe a sol.
Sinto-me ócio.
Seria fácil ser poeta se me pagassem apenas para ver.

MARGEM NORTE

Haja vento para me fumar os cigarros.
A liberdade está no que os olhos vêem e no que as mãos não tomam.
Ter é perder.
Pergunto-me se as águas do Tejo escorrem as dores de Lisboa.
Sem saber onde vão entrego-lhe as minhas.
Padecer de solidão é coisa pouca.

EU FINJO QUE 1+1 SÃO DOIS

Enclausuramos tudo.
Tendemos a castrar a liberdade de apenas ser.
De tudo.
Até o tempo enclausuramos em minutos e anos.
O número é a ordem. O número é a regra.
O número castra.
E sim, senhores, é tão palpável e material como a palavra!
Se bem que... uma jaula precisa de 12 e não de 9 ferros...
Porque na diferença pode escapar-se um corpo.
Pois, o número faz a diferença.
Como acrescento à vida subtrai as possibilidades de erro.
De que vale morrer sem ter errado? Para quê?
Se nem a matemática beneficia disso?!

O CAMINHO FAZ-SE ANDANDO

A vida é a ironia do simples vestir complicado.
Sendo da altura do nosso olhar
Nem sempre somos capazes de ver em frente.

E tudo andaria bem vestido
Sem a pretensão de ignorar
O que parece claro.


O sentido é único.
Talvez se possa ainda ver
A verdade no catálogo de Outono/Inverno.

É tempo do tudo.
No entanto o nada faz a moda.
É tempo de caminhar.

SERVA

Descolo mãos e pés do desejo que te guardei.
Foi masoquista esta minha forma de amar.
Foi sádico o teu desejo por mim.
Sadomasoquista este nosso interesse!

SEM DESTINO

Procuro faz tempo palavras que demovam certezas.
Procuro faz tempo palavras que conduzam.
Procuro faz muito tempo palavras que expliquem em si,
O inexplicável que há em mim.

Procuro faz tempo um caminho até ti.
Procuro em palavras uma estrada e nela um destino.
Procuro que o destino te encontre.
E eis-me aqui ainda na procura.

Procuro na fantasia,
O prazer que me privas.
Procuro-te à noite em sonhos,
Porque na minha cama não estás.

Mas os sonhos são em si uma metáfora da dúvida.
E na palavra o amor confunde-se com artigo de saldo.
Nem o sonho serve o prazer.
Esse só na privação!




AS PALAVRAS

Tantas e tão parcas.
Infinitas nos limites.
As putas das palavras
Corroem vorazes apetites.

Entre o oxigénio e a ideia.
Está o dióxido de carbono.
Não existe puro,
Fora dos erros ortográficos.

Entre a palavra e a fantasia,
Está: um e E um A.
Carregados de significado,
Como outra coisa qualquer.

Significar.
Mas qual significar, senhores?
De que interessa que signifique,
O quê? Para quem? Por quem?

CASA DA MÚSICA

Fortes enquanto sufocávamos,
E cristais no adeus.
Gotas de sangue doces como o mel.
Eram assim as imagens de nós.

Escorriam gotinhas de suor
Na face seca pela barba.
E nada parecia mais vulgar
Que enxugá-las com as mãos.

Também não interessa o que soava,
Encontramo-nos porque o acaso quis.
Assim foi…
Assim será!

Se o acaso quiser
E o ocaso permitirem,
Amanhã te encontro.
Amanhã sufocamos.

Não procuramos fusão,
Porque em fusão não acreditamos.
Restou o vazio da não tentativa.
O desejo da fantasia.

Porque o real também não existia
Fizemos ficção do fim-de-semana.
Da ciência dos corpos
Brotou uma qualquer narrativa.

E história haveria
Se tivéssemos Querido contá-la.
E história aconteceu,
No silêncio que cedeu.

Ficamos ali a imaginar
Se a felicidade chegaria
Através da permissão
À realidade virar fantasia!

Tu que não me percebes amor
Amas como se percebesses
Se percebesses, amor,
Amarias outra qualquer.

Sabes que me não podes amar
E que o amor de complicado tem o acontecer.
E no acontecer a complicação
De o sabermos inexistente.

Então, onde estamos nós?
Onde nos encontramos então?!
Onde podemos marcar encontro?
Naquele lugar da fantasia?!

Porque aquele tempo serviu,
Serviu para nós amor,
Serviu-nos a necessidade de amar,
Serviu-nos.

Escrevo com a imagem do pensamento em ti
Vendo pelo canto do cansaço
Uma mão deslizante sobre um papel perturbante
E um sentido de nada!

Em direcção de quê se não sei onde estou.
Perdi coordenadas e, não sendo mortal
Esta diversão assusta,
Convida a aceitar a mão da loucura!

Diria Óh Meu Deus se fizesse qualquer sentido.
Assim suspiro.
Como quem baba por comida,
Bebendo da minha imaginação.

E assim me deixo ser no tempo.
Quanto a vocês,
Podem sempre encontrar-me na esquina da fantasia
Com a fantasia do real.

E porque o real não existe
Vou escapar com os olhos
Às letras que desenho,
Antes que me convença de qualquer coisa!!!